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Ancelotti começa a desenhar uma nova Seleção Brasileira

Ancelotti começa a desenhar uma nova Seleção Brasileira

A primeira convocação de Carlo Ancelotti após a Copa do Mundo de 2026 deixa uma mensagem bastante clara: o treinador italiano parece disposto a iniciar um novo ciclo na Seleção Brasileira.

Depois da eliminação nas oitavas de final para a Noruega, Ancelotti promoveu mudanças importantes na lista de 26 convocados para os próximos amistosos. E não foram mudanças apenas pontuais. Dos jogadores que estiveram na Copa do Mundo, somente nove aparecem nesta primeira convocação pós-Mundial.

É um indicativo de que o treinador começa, de fato, a olhar para 2030.

Outro dado chama atenção: dez dos 26 convocados atuam no futebol brasileiro. Ancelotti voltou os olhos para o Campeonato Brasileiro e buscou alguns dos jogadores que vêm se destacando na competição. É uma mudança interessante de postura, principalmente para um treinador que, naturalmente, conhece muito bem o futebol europeu.

Entre as novidades, oito jogadores terão a oportunidade de vestir a camisa da Seleção Brasileira pela primeira vez. E há nomes que merecem atenção especial.

No gol, Pedro Morisco, do Coritiba, e Otávio, do Cruzeiro, aparecem como alternativas para uma posição que precisa encontrar novos nomes para o futuro. A Seleção não pode depender eternamente de Alisson, e dar oportunidade a goleiros jovens é fundamental para construir uma sucessão segura.

Na defesa, Artur Dias, do Athletico-PR, e Jair Cunha, do Nottingham Forest, também ganham sua primeira oportunidade. Nas laterais, Mauro Júnior, do PSV, e Matheuzinho, do Corinthians, entram no grupo de estreantes. No meio-campo, Breno Bidon, do Corinthians, e Gabriel Bontempo, do Santos, completam os oito jogadores que podem fazer sua estreia pela equipe principal.

É uma lista que mistura juventude, observação do futebol brasileiro e nomes que já possuem experiência no exterior.

Também considero acertada a convocação de Samuel Lino. O atacante vive um bom momento com a camisa do Flamengo e merece ser observado nesse novo ciclo. É justamente esse tipo de jogador que uma Seleção em reconstrução precisa acompanhar de perto: atletas em boa fase, capazes de chegar ao time nacional com confiança e intensidade.

Outro ponto positivo é o retorno de Pedro e João Pedro, que ficaram fora da Copa do Mundo. São jogadores com características diferentes e que podem oferecer novas alternativas ao setor ofensivo. Pedro, principalmente, pode representar uma opção de referência na área, enquanto João Pedro oferece mobilidade e capacidade de participar mais da construção ofensiva.

A convocação também confirma uma decisão que, na minha avaliação, precisava acontecer: o encerramento de alguns ciclos.

Ancelotti parece ter entendido que era necessário virar a página em relação a nomes como Neymar, Casemiro e Danilo. Não se trata de apagar a importância desses jogadores na história recente da Seleção, muito menos de questionar suas trajetórias. Trata-se de compreender que uma equipe precisa saber quando começar a construir seu próximo capítulo.

E, ao que tudo indica, esse capítulo começou agora.

O treinador italiano está buscando alternativas, testando jogadores e ampliando o leque de opções. O objetivo não deve ser apenas montar uma Seleção competitiva para os próximos amistosos, mas construir uma equipe capaz de chegar forte à Copa do Mundo de 2030.

Entretanto, existe uma questão que continua sem resposta e que considero talvez o principal problema dessa convocação: onde está o camisa 10?

A Seleção Brasileira ainda carece de um jogador capaz de ser o cérebro da equipe, aquele atleta que recebe a bola entre as linhas, pensa o jogo, encontra espaços e cria oportunidades quando o adversário fecha a partida.

Temos bons volantes, atacantes talentosos e jogadores de velocidade. Temos jovens que estão surgindo e nomes importantes atuando nos grandes centros do futebol mundial. Mas ainda falta aquele jogador capaz de assumir a responsabilidade pela criação.

E esse é um problema que Ancelotti terá de resolver.

Não necessariamente precisamos voltar à ideia tradicional de um camisa 10 clássico, mas precisamos encontrar um jogador que pense o jogo. Alguém capaz de organizar, acelerar, cadenciar e decidir com a bola nos pés.

A convocação, portanto, deve ser analisada menos pelo resultado imediato dos amistosos e mais pelo que ela representa.

Ancelotti está começando a mexer nas peças. Está olhando para o futebol brasileiro. Está dando espaço para jovens. Está promovendo estreias. Está resgatando jogadores que ficaram fora da Copa e, principalmente, parece disposto a encerrar ciclos que já não faziam sentido para o futuro da Seleção.

Agora começa uma nova etapa.

O Brasil terá pela frente dois amistosos contra a Austrália, nos dias 25 e 29 de setembro, e depois enfrentará a Índia, em 3 de outubro, no primeiro confronto da história entre as duas seleções.

Mais importante do que vencer esses três jogos será observar o que Ancelotti pretende construir.

A renovação começou. E, se for conduzida com planejamento, paciência e coragem para testar novos nomes, pode ser justamente o primeiro passo para que o Brasil volte a chegar a uma Copa do Mundo com uma equipe verdadeiramente preparada para ser protagonista.

Ruan Franklin

Ruan Franklin

Colunista

Ruan Franklin é jornalista formado pela Universidade Federal do Cariri (UFCA) e advogado graduado pela Universidade Regional do Cariri (URCA). É pós-graduando em Direito Desportivo Aplicado e Direito Eleitoral.

Atualmente integra a Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Missão Velha. Possui experiência no radiojornalismo, com atuação por sete anos na Rádio Transcariri FM.

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